A leitura, a partilha e discussão de "Os despojados"de Ursula Kroeber Le Guin.


Muito tarde, na noite seguinte da nave, Shevek estava no jardim da Davenant. As luzes estavam apagadas, e o jardim estava iluminado apenas pelas estrelas. O ar estava bastante frio. Uma planta de florescimento noturno, proveniente de um qualquer mundo inimaginável, tinha aberto entre as folhas negras e exalava o seu perfume como uma doçura paciente e fútil, para atrair uma qualquer borboleta a trilhões de quilómetros de distância, no jardim de um mundo que orbitava outra estrela. As luzes do sol variam, mas há só uma escuridão. (Os despojados, [1974] 2017, 320)


Ursula Kroeber Le Guin deixou-nos universos atravessados pelo perfume de uma flor nocturna cujo aroma percorre trilhões de quilómetros. Universos conectados por borboletas viajantes espalhando pólen e palavras.

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Do pormenor ao gigantesco, são universos de leitura ainda por descobrir. A leitura é isso, alargar as experiências, representar-se mundos e pessoas diferentes de nós e vir a conhecê-las, assim como ficar a conhecer-se. A leitura permite-nos viver “numa grande casa, com muitos quartos e janelas e portas e nenhuma delas fechadas”. Então, sim, ler e reler Ursula Kroeber Le Guin, não só porque perdi a página onde Shevek nos diz que uma mulher não precisa de aprender a ser anarquista, mas também porque há muito mais portas e janelas abertas para explorar.

[Excerto do texto intitulado "O infinito num pormenor. Ler e reler Ursula Kroeber Le Guin" de Ana da Palma in A IDEIA

revista de cultura libertária. II série – ano XLIV – vol. XXI – n.os 84/85/86 – Outono de 2018]